segunda-feira, 26 de abril de 2010

O Segredo dos Bons Professores não é o que a Globo e a Época dizem

Não sou profissional da área de Educação e então peço licença a essa categoria muito especial de trabalhadores - OS PROFESSORES - para opinar sobre duas matérias que tive a oportunidade de acompanhar nestes últimos dias.

A primeira destas matérias é a reportagem de capa da revista Época desta semana com o título de "O SEGREDO DOS BONS PROFESSORES". A outra matéria foi exibida hoje como reportagem especial do Jornal da Record, e nela foi mostrada a dificuldade de lidar com alunos oriundos de Favelas dominadas por grupos rivais de traficantes e que são obrigados a conviver no mesmo espaço.

A matéria da TV ainda que superficial, é importante como contraponto ao mundo de faz-de-conta mostrado na revista. Ao mostrar a realidade tal como ela é, os riscos corridos por professores de carne e osso, a TV acabou por ajudar a formar a idéia de matéria "sob encomenda" ou "a serviço de" que a revista Época demonstra.

A matéria da revista Época chama a atenção de imediato pela forma óbvia de artificialidade da própria capa, na qual uma professora sorridente e mão posta sobre a outra, em  pose de comercial de margarina, sorri esbanjando alegria e confiança em si mesma, confiança esta que somente se justifica no campo da propaganda enganosa, revelada na própria falsidade de seu sorriso, que faz a foto de capa se assemelhar a outras páginas de anunciantes comerciais espalhados pela revista.

A matéria em resumo, tenta mostrar que o aparente fracasso da Educação no Brasil se deve quase que exclusivamente à falta de qualidade dos profissionais. Para justificar tamanho descalabro, a revista escolheu "exemplos" de professores que baseados em três ou quatro dicas dignas de qualquer livro vagabundo de auto-ajuda, promovem em suas salas de aula verdadeiras "revoluções" na forma de ensinar.

A matéria não aborda nada de  pedagógicamente relevante, ignora solenemente as dificuldades inumeráveis que os professores sofrem em seu dia-a-dia e sustenta seu argumento única e exclusivamente no sucesso pessoal de três ou quatro indivíduos.

Vazia de conteúdo mas repleta de significado a matéria pretende convencer a seus leitores que os exemplos nela mostrados, põem por terra os anos de lutas árduas e inglórias que os bravos professores promoveram e ainda promovem contra todos desmandos e desrespeitos que sucessivos governos impuseram a todos os profissionais da Educação.

É particularmente significativa a existência de certas palavras chaves que pontuam a matéria, tais como COMPROMISSO, MERITOCRACIA, RESULTADOS, METAS, BONIFICAÇÕES e DEMISSÕES baseadas em DESEMPENHO. Essas palavras que nada explicam mas tudo dizem, são adequadas ao mundo corporativo onde a concorrência desenfreada e a busca incessante do lucro determinam o caminho que devem seguir as empresas.

Transportar o discurso empresarial para o ambiente da Escola equivale a retroceder ao tempo em que o ensino se baseava nos preceitos religiosos e divinos porém subsitituindo a figura onipotente de Deus pela irresistível lógica de mercado do Capital Financeiro.

Os grandes meios de comunicação são extremamente contundentes ao vilanizarem os trabalhadores organizados, taxando suas justas reivindicações como interesses corporativos. Os órgãos da grande imprensa são os primeiros a classificar os investimentos em Serviços Públicos como gastos excessivos dos governos ainda que estes invistam muito menos do que deveriam. Porém estes mesmo órgãos, entre eles a própria Organização dona da revista Época, omite que construíram seu império se aproveitando das benesses do Estado que, em muitos momentos, interessados em apoio da mídia não se utilizaram da lógica de mercado que tão ardorosamente a revista Época agora defende.

Encastelados em seus jornais, revistas e TVs, empresários travestidos de jornalistas, defendem descaradamente posições nitidamente equivocadas científicamente mas extremamente adequadas à sua estratégia empresarial e vomitam a todo tempo e lugar a balela de que os problemas coletivos se resolvem na vitória individual, jogando nas costas dos trabalhadores a responsabilidade pelo fracasso.

Anos e anos de governos descompromissados com o seu povo e de uma classe empresarial egoísta e oportunista são os verdadeiros responsáveis pelas imensas dificuldades que os profissionais da Educação encontram. O mesmo Estado que obriga um professor a trabalhar em uma área de confronto é aquele que não lhe fornece a segurança necessária para desempenhar sua profissão. E este mesmo Estado ainda lhe paga uma miséria para que ele forme futuros cidadãos e potenciais eleitores dessa corja que há séculos se entroniza no poder.

Lamentamos que jornalistas, trabalhadores como todos nós e os professores que "enfeitam" a matéria da revista, se prestem a esse papel. Talvez se a "mocinha" da capa da revista se desse conta de que está sendo nada mais que um boneco manipulável dos grandes interesses econômicos, se lembraria dos juramentos que fez, se lembraria de que seu compromisso é com a educação e a formação moral de crianças e adolescentes e provavelmente seu sorriso de "comercial de Colgate" se transformaria numa expressão séria que é a forma como devemos encarar o problema da Educação no Brasil.

sábado, 10 de abril de 2010

Olhando com esmero a História do Brasil, desde a sua independência, não se pode dizer que o Golpe Militar de 1964 tenha sido uma surpresa.


Afinal, vários ensaios de tomada do poder em nome de um “objetivo maior” já haviam ocorrido, inclusive com o Estado Novo perpetrado por aquele que para muitos brasileiros (desmemoriados ou desinformados) foi o maior presidente de nossa história – Getúlio Vargas.

Vargas foi o primeiro a tomar o poder em suas mãos sob o argumento de uma suposta “ameaça comunista” e seu exemplo foi seguido pelo militares  que, amparados no mesmo falso argumento, impuseram ao país, 21 anos de ditadura, cerceamento de liberdades, corrupção, crimes, assassinatos e causaram danos irreparáveis no desenvolvimento de uma sociedade madura e consciente de seus direitos e deveres. Uma
mancha vergonhosa em nossa história perpetrada pelo regime militar, ignomínia comparável aos 229 anos de escravidão de índios e negros que anteriormente havíamos vivido.

Hoje em dia vemos alguns historiadores reformistas e militares e civis (viúvas da ditadura) classificam o Golpe como a Revolução de 1964. De fato existe uma modorrenta e inócua briga pela correção do termo a ser usado ao falarmos do Regime Militar.


Contudo, não estamos aqui para discutir retórica ou nomenclatura. Muitas vezes os nomes que damos às coisas nada significam além de seu próprio nome. Para uma vítima não importa o nome dado ao que sofreu, o dano irreparável está feito. Tentar qualificar o período de Ditadura como regime Revolucionário, me parece eufemismo de quinta categoria e tentativa de varrer para baixo do tapete, anos de violação de direitos humanos praticados por governos de bandidos fardados que hoje se escudam na chamada Lei de Anistia para não pagarem por seus crimes.

Apesar disso, há época, o golpe militar foi saudado por importantes setores da sociedade brasileira. Grande parte do empresariado, da imprensa, dos proprietários rurais, da Igreja Católica, vários governadores de estados importantes  e amplos setores de classe média pediram e estimularam a intervenção militar, como forma de pôr fim à ameaça de esquerdização do governo e de controlar a crise econômica.

Muitos destes padres, empresários, jornalistas e políticos, se "fingem de mortos" deixando toda a carga de culpa para os militares. Se esquecem que suas mãos estão sujas de sangue também.
Não bastassem terem causado um mal irreparável ao nosso povo e nosso país, alguns destes revisionistas e militares boçais de modo geral, tentam barrar iniciativas de investigação de seus crimes, alegando que os comunistas (na verdade trabalhadores, estudantes, homens e mulheres que lutavam contra a tirania) também cometeram crimes...

É bom lembrar, senhores militares e conservadores de modo geral:  Vocês é que estavam na posição de respeitar a Lei. Vocês é que eram pagos para sociedade para serem guardiães dos direitos. Ninguém lhes deu procuração para matar e torturar pessoas. Se os guerrrilheiros eram bandidos como vcs alegam terem sido, que os prendessem.
Ao usar de práticas criminosas para combater supostos crimes, vocês se rebaixaram a algo bem menor que os bandidos que combatiam. E agora tentam igualar aqueles que lutaram pela democracia a vocês? Tenham um pingo de dignidade!

E se Deus e a Justiça realmente existirem, espero de coração que a cada um de vocês queime pela eternidade no mais profundo e infecto canto do Inferno

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Direitos Humanos não São Direitos de Bandidos

Uma crítica muito comum aos movimentos pelos Direitos Humanos é aquela que associa tais direitos à defesa do crime ou dos criminosos. Esta associação busca forjar a idéia de que o movimento de direitos humanos apenas se preo­cupa com o direito dos presos e suspeitos, desprezando os direi­tos dos demais membros da comunidade.

O objetivo desse discurso, contrário aos direitos huma­nos,  é,buscar criar um conflito dentro das camadas menos privilegiadas da população, eximindo as elites de qualquer responsabilidade em relação à criminalidade. Ao vilanizar os que comentem um crime, como se fosse um ato estritamente voluntário, dissociado de fatores sociais, como desigualdade, fragilidade das agências de aplicação da lei, desemprego ou falta de estrutura urbana, jogam a população vítima da violência apenas contra o criminoso, ficando as elites isentas de responsabilidades, pela exclusão social ou pela omissão do Estado, que impulsiona a criminalidade. Nesse contexto, associar a luta pelos direitos humanos à defesa de bandidos foi uma forma de buscar manter os padrões de violência perpetrados pelo Estado contra os negros e os pobres, criminosos ou não.

E evidente que, ao se contrapor a toda a forma de exclusão e opressão, o movimento de direitos humanos não poderia deixar de incluir na sua agenda a defesa da dignidade daqueles que se encontram envolvidos com o sistema de justiça criminal. Isto não significa. porém, que o movimento de direitos humanos tenha se colocado, a qualquer momento, a favor do crime; aliás a luta contra a impunidade tem sido uma das principais bandei­ras dos militantes de direitos humanos. No entanto, esta luta deve estar pautada em critérios éticos e jurídicos, estabelecidos pelos instrumentos de direitos humanos e pela Constituição, pois toda vez que o Estado abandona os parâmetros da legalidade, ele passa a se confundir com o próprio criminoso, sob o pretexto de combatê-lo. E não há pior forma de crime do que aquele organizado pelo Estado.

A gramática dos direitos humanos está fundada no pressu­posto moral de que todas as pessoas merecem igual respeito umas das outras. Somente a partir do momento em que formos capazes de agir em relação ao outro da mesma forma que gos­taríamos de que agissem em relação a nós é que estaremos con­jugando essa gramática corretamente. Os argumentos de que direitos humanos são direitos de bandidos, de que atrapalham a atuação das polícias ou de que minam a soberania do Estado buscam destruir essa lógica. Aderir a qualquer desses argumen­tos significa assumir a proposição de que algumas pessoas tem mais valor, outras menos, e de que ao Estado e seus funcionários cabe fazer a escolha de quais deverão ser respeitadas e quais poderão ser submetidas à exclusão, à tortura, à violência e à discriminação.